MORTE NA CONSOLAÇÃO – UMA HISTÓRIA SOBRE A MORTE

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MORTE NA CONSOLAÇÃO

Uma História sobre a Morte

 

INTRODUÇÃO

O maior mistério da vida talvez seja a morte, que pode ser vista como um mistério incompreensível ou como um absurdo inaceitável. Ela faz parte da vida de todas as pessoas e de todos os seres existentes no universo, pois tudo o que começa termina, tudo que inicia tem que ter um fim e assim é a nossa vida. Todos nós começamos a morrer desde o dia em que nascemos, portanto ela é apenas uma etapa de nossa existência.

A morte pode ser tratada como um tabu por muitas pessoas e para muitos, conviver com essa ideia se torna difícil e por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é tão natural como existir e podemos até dizer que ela é a única certeza que temos em nossa vida.IMG_5833

As pessoas podem aceitar, ou negar a morte. Tentar fugir e imaginar que ela deixe de acontecer consigo ou com alguém de sua família, mas o fato é que ela é real e que todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer. Assim como todas as coisas existentes no mundo também surgem, um dia vão desaparecer. As árvores nascem de uma pequena sementinha, se transforma numa planta, cresce e vira uma enorme árvore, dá seus frutos e um dia seca e morre, como todas as outras coisas. Podemos imaginar também um grande baile que se inicia do nada, organizados por algumas pessoas, onde todos dançam e são felizes e numa determinada hora chega ao seu fim, como tudo e todos nesse mundo. Não podemos escapar desse destino, que para muitos é trágico, mas real. Muitas pessoas imaginam a morte como uma criatura negra e escura, coberta por uma capa preta, sem rosto e segurando uma foice afiada na mão. Essa criatura é uma invenção das pessoas, que não pode ser confundida com a verdadeira face da morte.

As pessoas que tem um forte grau de desenvolvimento religioso, geralmente têm menos medo da morte devido ao trabalho espiritual e se aprende que a morte é uma passagem para uma nova vida onde tudo é melhor do que aqui nesse plano terreno, mas existem aquelas pessoas que não trabalham a alma neste mundo e não acreditam que existe uma outra vida, e nesta, procuram valorizar mais o dinheiro e o poder do que qualquer outra coisa, uma vez que  querem aproveitar de tudo e de todos no máximo de sua existência e se esquecem que terão o mesmo fim que todos tiveram e que todos irão ter.

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O medo da morte é um sentimento inerente ao processo de desenvolvimento humano, que aparece na infância com as primeiras perdas, pois é um mundo desconhecido, somado ao medo da própria extinção que com o tempo pode aumentar ou diminuir de acordo com o ambiente e a cultura em que se está envolvido.

Muitos acreditam que após o processo da morte, depois do falecimento, o espírito vai para um local distante onde o sol jamais ilumina e os galos nunca anunciam a volta da aurora, o cuco não canta e os cães não ladram, e os gansos que vigiam as casas nunca gritam e o silêncio reina eterno. Outros creem que a morte é irmã gêmea do sono, que entramos no mesmo processo quando dormimos e que ficamos assim pela eternidade esperando o dia do juízo.

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Tudo o que se fala da morte, são crenças, estudos ou concepções religiosas. Na verdade ninguém tem certeza do que realmente há do outro lado e a única certeza é que ela nos espera, talvez daqui a um minuto, uma semana, um ano, dez, vinte ou cinquenta anos. Não sabemos a data, mas sabemos que ela vem e aceitando ou não partiremos para uma viagem que ainda não sabemos o fim.

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A história do Coveiro João, aquele que morreu sem nunca ter morrido e por fim acabou morto.

 

Na cidade de São Paulo, mais precisamente no bairro da Consolação morava um rapaz chamado João, uma pessoa muito conhecida pelas redondezas por João Coveiro. O rapaz trabalhava há muito tempo no cemitério daquele bairro, desde a época em que ainda se enterrava “no chão”, ou seja, na terra como ainda se faz atualmente no Cemitério de Vila Formosa.

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João devido ao longo tempo como coveiro passou a comandar todo sistema de enterros naquele cemitério do centro da capital. Ninguém morria nas redondezas sem o seu conhecimento. Quando alguém o encontrava na rua, logo gritava: “Olha o João Coveiro, o chefe da morte”. Ele gostava do apelido e se divertia com a situação. As pessoas mantinham certa simpatia por ele.

Um dia João estava saindo do trabalho, quando uma bela mulher, de cabelos negros e compridos e um olhar misterioso o procurou e disse que alguém precisava falar com ele. A mulher sem se identificar lhe entregou um endereço. João abaixou a cabeça e observou  que era de um casarão próximo à entrada principal do cemitério naquela mesma rua, quando levantou o olhar para falar com a mulher, para sua surpresa ela havia desaparecido como que por encanto. Achou tudo muito estranho e pensou em ignorar o acontecido, mas algo o atraiu e quando menos percebeu estava defronte ao casarão que parecia abandonado. Nas redondezas tudo estava muito sujo e nem as prostitutas, gatunos e malandros permaneciam por ali. Um pavor tomou conta de seu corpo e a noite caiu, o lugar ficou mais tenebroso ainda ao escurecer, causando calafrios. As sombras pareciam sinistramente vivas, um arrepio subiu por sua espinha, a porta central da casa estava entreaberta e suas pernas tremiam de medo. Não cogitou e ao entrar, havia teias de aranha por todo lado. Parecia cenas um filme de terror, sem falar no cheiro de mofo, parecia abandonado há anos, mas algo de muito estranho aconteceu.

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Uma luz se acendeu na parte superior da casa. João subiu as escadas e o barulho da madeira dos degraus ruía e parecia que aquela casa era mal assombrada. Ao se aproximar da luz, percebeu que um dos cômodos estava iluminado e entrou, mas tamanho foi o susto, quando se deparou com um quarto escuro e uma mulher de branco com lindos cabelos negros e compridos sentada numa cadeira de costas para ele. Era muito parecida com a que apareceu no cemitério lhe entregando o bilhete, mas não a reconhecia devido a penumbra do lugar. A mulher se levantou, virou de frente, demonstrou ter uma bela fisionomia e muito surpreso ficou quando ela lhe chamou pelo apelido de João Coveiro. João ficou paralisado. Apenas suas pernas tremiam e seus olhos estavam arregalados. Um  medo corria por suas veias e uma tremenda vontade de urinar. Quase se mijou todo. Antes que desmaiasse, a mulher se manifestou, pediu para que lhe fizesse um favor e em troca, de seu dedo tirou um anel com a figura de Santo André, e por coincidência era a véspera do dia do santo. Quando João viu o anel com a imagem do santo, lembrou que o dia posterior era o dia dele e que rezava a lenda que a véspera do dia de Santo André o mal se propagava. Nesse momento a urina corria por suas pernas e a mulher lhe entregava o anel dizendo que era uma peça muito valiosa e de seus antepassados, mas que agora não precisava mais daquilo e que poderia ficar com ele e fazer o que quisesse, porém que não deixasse de entregar uma encomenda a uma pessoa, lhe passando um pacote e um endereço. João leu o endereço e percebeu que ficava próximo dali. Era um apartamento na rua da Consolação, perto do Viaduto 9 de Julho e quando olhou para a mulher novamente, só viu a cadeira balançando sozinha sem ninguém mais naquele quarto e apenas uma luz iluminando aquele local onde a mulher estava. Muito assustado e todo mijado, João saiu correndo dali e pensou em jogar o embrulho fora, mas uma voz dizia dentro de sua cabeça para não mexer naquele embrulho. Muito assustado, seguia acelerado pela Rua da Consolação a fim de chegar logo no destino e acabar com aquilo que o agonizava. No entanto, algo estranho acontecia que o transportava para algo que parecia a morte, uma espécie de missão, até que chegou ao endereço indicado e tocou a campainha. Um homem de terno com outra mulher o atendeu. João disse que lhe mandaram uma encomenda e o homem começou a abrir o pacote, mas a curiosidade de João era tanta que observou todo o ambiente e sobre uma pequena mesinha no canto da sala uma foto já desbotada pelo tempo mostrava exatamente o rosto daquela sinistra mulher do casarão. Sem tempo de mais nada, o homem abriu o pacote e João deparou com um monte de ossos, um crânio de mulher com os cabelos longos e novamente em sua mente veio a imagem daquela mulher do casarão da Consolação. Assustado, o homem jogou aquilo no chão, pois o susto foi enorme e algumas imagens apareceram em sua mente, de uma mulher muito bela e de cabelos longos e negros dizendo que um dia voltaria para se vingar. Aquelas palavras ecoavam em sua mente, foi quando ele desmaiou, caiu no chão e na queda bateu com a cabeça numa quina e o sangue escorreu por todo lado. A mulher que estava com o homem naquele apartamento era Cíntia, que entrou em pânico, pediu a ajuda de João para levá-lo a um hospital e no caminho disse que a mulher dos ossos era a ex-mulher de seu atual esposo, que ela havia desaparecido e que muitas pessoas acreditavam que seu esposo havia sido o algoz dela, mas que nunca se provou nada contra ele e a morte de sua ex foi considerada acidente. No hospital, ficaram horas aguardando, mas a pancada foi forte e o homem não resistiu e acabou morrendo.

João contou a Cíntia como conseguiu aquele embrulho e depois investigando, descobriu que aquela mansão pertencia à família do falecido e que os ossos eram realmente de sua esposa. João foi para sua casa e ficou perturbado com os últimos acontecimentos, pois sempre esteve envolvido com a morte, mas aquela história era muito macabra e numa conversa com seu chefe no Cemitério da Consolação, pediu uma licença do emprego, deixando o cemitério, mas antes de sua saída, fez seu último enterro, o de Abraão, aquele homem que sofreu a queda no dia que recebeu aquele macabro presente.

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No dia do enterro Cíntia ficou observando João e descobriu que ele era o coveiro do cemitério e achou muito estranho tudo aquilo acontecer. Aquele misterioso presente com os ossos da ex esposa de Abraão ser entregue daquela forma e o entregador ser o coveiro, e um dia após a morte de seu marido, aquele mesmo homem que foi o pivô de seu desaparecimento, estava lá no cemitério, ministrando o féretro de seu esposo. Aquilo era tudo muito estranho e confuso para Cíntia, que pensava em investigar.

Alguns dias depois, Cíntia foi ao cemitério da Consolação procurar João para saber mais sobre aquela história, mas as pessoas disseram que ele havia tirado uma licença e ficaria algum tempo na casa de uma tia na pequena cidade de Assis Chateaubriand no interior do Paraná. A cidade era muito pequena e na casa da tia não tinha telefone fixo e o sinal da operadora não pegava de forma alguma. Sem internet fica sem comunicação, João ficou incomunicável. Antes de sair disse as pessoas que iria demorar e que talvez nem voltasse mais, pois algo de muito estranho havia acontecido naqueles últimos dias e queria se ausentar.

O responsável pelo cemitério colocou uma nova pessoa para fazer o serviço de João, e por coincidência o homem também se chamava João, mas esse João não ficou muito tempo, uma vez que sofreu um acidente, foi atropelado por um ônibus conduzido por uma mulher branca de cabelos negros e compridos no cruzamento da rua Maceió com a Rua da Consolação e acabou morrendo. Alguns dias depois desse fato, alguém comentou com Cíntia que morreu um coveiro chamado João que trabalhava no cemitério da Consolação. Essa notícia foi drástica, pois pensou que fosse o João Coveiro do episódio da morte de Abraão e tinha esperanças de poder encontrá-lo novamente para conversar mais e tentar descobrir algo sobre aquela história que era muito estranha e que causou tantos danos, mas que para ela agora não importava mais, pois acreditava que João estava morto e comentou com essa sua amiga que lhe passou essa notícia que era o João Coveiro, o homem do presente macabro que havia morrido.IMG_5839

Esse comentário foi se espalhando e como “João Coveiro” havia viajado, a notícia de sua morte chegou ao cemitério onde trabalhava. Na verdade não havia passado de um grande mal entendido, mas todos se perguntavam se era verdadeira e até seus amigos do cemitério que sabiam do outro João que morreu, pensavam mesmo que o João anterior também havia morrido.

João Coveiro era uma pessoa muito atualizada no mundo cibernético. Tinha um computador com e-mail, Facebook e até WhatsApp. Como era uma pessoa simpática e que fazia amizades com facilidade, todos tinham seu Facebook e através dele conversava instantaneamente sempre que necessário. As pessoas acessavam seu Face e deixavam recados in box, mas após sua viagem permaneceu sempre offline. Esse fato confirmava que não estava mais em sua casa e que não acessava mais a internet e que poderia estar realmente morto. A notícia correu mundo, pelo menos o mundo dos conhecimentos dele e muitas pessoas o procuravam no cemitério querendo saber como havia sido a morte de João Coveiro.

Essa notícia foi se espalhando mais e mais até que um mês depois, João Coveiro retornou para sua casa e ao chegar, acessou a internet. Alguém do outro lado escreveu:

João! Você está vivo? Que susto, não faça mais isso!

Era a secretária da prefeitura onde ele sempre estava resolvendo os problemas referentes ao cemitério. João questionou o que estava acontecendo e ela novamente perguntava se estava vivo, pois as notícias que corriam eram de que estivesse morto. Ele respondeu ironicamente:

Claro que estou. Não está teclando comigo, ou acha que quem está escrevendo para você agora é um fantasma?”

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Depois dessa mensagem eletrônica, João foi imediatamente ao cemitério e mostrou sua cara, dizendo a todos que estava vivo. Mas ao chegar, o susto foi grande, pois todos pensavam que ele estivesse morto, no entanto de repente ele aparecia “vivinho da silva”. As pessoas não paravam de procurá-lo no cemitério para saber se estava mesmo morto e sempre com o mesmo tema. O desespero tomava conta daquele homem, pois nunca imaginou que as pessoas gostavam tanto assim dele.

Mas algo estava acontecendo, pois essa notícia da morte de João se espalhou por onde devia e por onde não devia. Seus vizinhos arregalavam os olhos ao verem vivo e bonitão andando pelas ruas. No seu emprego teve que se apresentar a todos os seus superiores e até ir à prefeitura, para provar que estava realmente vivo, pois não queriam contar com um defunto no quadro de funcionários vivos.

João não sabia a origem da história de sua morte, talvez alguém distante dali que o conhecia e que quis lhe pregar uma peça, mas nunca se lembrou de Cíntia, mesmo por que ela não o conhecia tanto assim.

A notícia foi crescendo e tomando proporções que preferia estar realmente morto a ter que suportar aquele assédio fúnebre. Seu e-mail e Facebook lotavam de mensagens sempre com o mesmo questionamento sobre o motivo de sua morte e tinha que responder, desfiando a mesma ladainha de explicações que já estava lhe enchendo a paciência. Não aguentava mais e estava perdendo as estribeiras até que falou novamente com seu chefe e pediu outra licença, só que de alguns meses.

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Ao voltar para sua casa, ligou o computador, deixou uma mensagem gravada em seu e-mail e foi novamente para a cidade de sua tia no Paraná para tentar esquecer aquela história e nunca mais ouvir falar sobre sua suposta morte e nunca ficou sabendo quantas pessoas acessaram sua caixa de mensagem. Todos que acessavam o correio eletrônico de João Coveiro liam uma irônica mensagem que João havia gravado que dizia:

Aqui é o João Coveiro, o defunto, direto do cemitério. O que foi?! Hahahaahahaha”.

João ficou seis meses em Assis Chateaubriand e depois disso voltou para sua casa na Consolação, retomou seus hábitos e seu emprego, enfim sua vida normal. Quanto a sua morte, como qualquer defunto que se preze, caiu no esquecimento e nunca mais se falaram nisso, mesmo por que nunca mais acessou aquele endereço eletrônico ou Face.

João ao retomar sua vida normal, achou que a decisão de desaparecer por uns tempos foi a melhor coisa que fez e depois disso tudo voltou ao seu ritmo e nessa altura dos acontecimentos, ninguém mais lembrava de sua suposta morte, até que certa noite a campainha de sua casa tocou. João meio que sonolento, abriu a porta e levou um tremendo susto. Uma mulher estava ali com um embrulho na mão, era Cíntia, aquela mesma que era casada com Abraão e que presenciou toda aquela sinistra história. Cíntia lhe entregou o pacote e disse que era uma encomenda. João meio assombrado, abriu o embrulho devagar e quando olhou dentro dele o susto foi tremendo e o pacote voou pelos ares, espalhando ossos por todo lado e uma voz pairava pelo ar dizendo:

João, aqui é o Abraão e voltei para te buscar.”

João desmaiou, caiu no chão, bateu com a cabeça que começou a sangrar. Cíntia fechou a porta e foi embora. O corpo de João ficou estirado ali e agora ele estava realmente morto.

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No outro dia, seus amigos do cemitério perceberam que ele não havia ido trabalhar e resolveram ligar em sua casa para saber se estava tudo bem, mas ninguém atendeu ao telefone e então resolveram acessar seu e-mail e Facebook e como não havia tido tempo de apagar a mensagem que havia deixado, continuava aparecendo o que havia escrito anteriormente:

Aqui é o João Coveiro, o defunto, direto do cemitério. O que foi?! Hahahaahahaha”.

Seus amigos ao ler a mensagem riram do outro lado do computador comentando:

O João é mesmo um palhaço, ainda está brincando com a morte, pois não apagou a mensagem de seu e-mail.”

João estava realmente morto e agora precisava provar que havia morrido, no entanto ninguém mais acreditava que sua morte era real e mesmo depois de seu enterro, todas as pessoas que não compareceram, achavam que aquela nova morte era uma nova piada e João mesmo morto, agora teria que ficar vivo para sempre, pelo menos na memória das pessoas.

 

FIM

*******

 

Uma história de MARCELO RISSATOFullSizeRender-24

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